terça-feira, 10 de setembro de 2013

Que parte direto de Bonsucesso...


       Nesse vagão, sujo, empoeirado de pensamentos, encontram-se cansaços de dias inteiros, suores de vidas exaustas e bocejos variados. Os olhos cansados, apoiados sobre livros de autoajuda, procuram nas linhas também exaustas abrigo dos vendedores, ambulantes, pedintes perdidos... Todos conectados por compartilharem, ainda que indiretamente, pensamentos prazerosos de descanso e de comida quente.  Chupetas, pregadores, baterias, pentes, toalhas, brinquedos, confetes, compassos, peneiras, pulseiras, relógios, despertadores, amoladores, espremedores - que espremem o bagaço da laranja e da paciência dos passageiros. Compre um, leve três! Aqui as oportunidades são únicas e o cliente nunca sai no prejuízo. Aqui todo empurrão é  movimento de guerra e todo conforto é privilégio de poucos. Com licença, obrigado, é direto? Que dia quente. Que vida morna. Quem vem da Central do Brasil é quem vai para o canto dele à noite.  E ainda agradecem nossa preferência; uma maravilha!

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Tudo Mudez

         E - pergunto como quem não sabe mesmo - como se faz para saber exatamente o lugar que ocupo? E, sabendo desse lugar,  como saber exatamente se quero tomar conhecimento? É bem verdade que o mundo está cheio de gente e que todas estão - em maior ou menor grau - cheias de bocas para falar, cheias de opiniões a dar e vereditos a decretar. É bem verdade também que, quando me deparei outro dia com a palavra "escutatória", sorri por dentro e com os olhos, achando graça por não sermos menos mudos. O silêncio seco e incomodativo é também o falar de todas as outras partes do corpo. O perigo disso é ficarmos mudos com o corpo inteiro. Aí é perdição na certa e de inércia de mais o santo desconfia. Sei que o silêncio de quem me lê se pergunta,  afinal, o que quero com lugares no mundo, mudez e corpo inteiro. Confesso que gostaria de apresentar uma frase só que pudesse combinar as três.  Não tendo nem frase nem lugar nem boas verdades nem silêncio total, fico ouvindo os vereditos de pessoas que falam mais que escutam, que decretam e que já estão bem certas de seus lugares.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Cá para nós

                                                                                                [Texto de  Luana Ramos para o Brasil]

      Então é proibido MANIFESTAR apoio a partido político na MANIFESTAÇÃO? 
     Na passeata dos Cem Mil de 1968, as pessoas foram até a ALERJ porque o prédio ainda simbolizava o poder legislativo federal, que já não mais estava sediado no Rio de Janeiro e já nem mais existia. O argumento de quebrar o Muro de Berlim passa por isso: o que o Muro representava para aquele povo? Mas o que o poder legislativo estadual (ou, simbolicamente, o federal) representa para nós? Omissão? Será que só dos políticos eleitos? Mas como mudar o país sem partido político? Existe uma proposta de mudança que defenda a erradicação dos partidos? Se existe, ótimo. Que ela seja defendida! Mas é necessário calar a manifestação legítima dos grupos que querem exercer o direito também    democrático de expressar seu apoio político?
      Em 1968 se lutava pela existência dos partidos. E pela liberdade de expressão. E pela liberdade de manifestação.
     Ontem, o lema "é proibido proibir" não ecoou nesse sentido. É inegável a legitimidade e a importância disso tudo, mas, será que é legítimo calar uma manifestação partidária? Ou, se essa é a bandeira, qual a proposta de substituição a esse modelo???? A imagem de Brasília foi a mais bonita e a que quero guardar disso tudo: aquela copa aberta representa o povo. Somos nós, eleitores, que preenchemos aquela casa, escolhendo aqueles que nos representarão. A parte, representada pelos partidos eleitos, tem, em essência, a função de representar o todo. Será mesmo que não existe movimento político capaz de representar os interesses do brasileiro? O que queremos? Mudança de "tudo". Como queremos? 
        Muitas pessoas morreram para que a nossa democracia existisse. Não vamos repetir os erros do passado e impedir a manifestação de opiniões, legítima e duramente conquistada. Em um grupo de cem mil tem espaço para diversas bandeiras. Não precisamos queimá-las, sobretudo, se não sabemos como apagar o fogo depois.
        Foi muito bonito o que aconteceu ontem, mas precisamos lembrar que já engolimos cálice e o cale-se há muito tempo. É o momento da voz, não do silêncio que atordoa.
 

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Do bom convívio dos passageiros

        Dentre todas as práticas que exercemos durante um dia, existe uma que parece passar despercebida: a dinâmica do ônibus coletivo. Tão normal quanto o 'bom dia' amarelo do motorista ou o bocejo do cobrador, a dinâmica do ônibus coletivo conta com a participação de todos os que nele estão, embora não notemos.
             Conseguir o assento da janela significa ocupar o trono do vencedor. Dali, você pode controlar a possibilidade do vento e ter o privilégio de optar pelo encontro com os olhos alheios ou pela  paisagem - forçadamente interessante. Não há um só que não suba os dois degraus já imaginando o embate que será a viagem caso nenhum trono esteja vago. Caso isso ocorra, ela já se apresenta desafiadora. Se a constatação vier acompanhada de um troco cheio de moedas é um sinal de que o dia não vai ser bom. 
             Lá dentro, é uma balé de passageiros.  Todos procuram a distância, o desencontro, o poder da janela. Somos puros sinais vermelhos em busca das saídas de emergência. O combate se inicia pela janela e nela se estabelece. Só é necessário um assento, duas pessoas e uma boa janela para a dança começar e os bailarinos se desafiarem como em uma batalha. É uma dança-guerra bonita de se ver. Cada um com seu corpo, tentando - ou não tentando - uma harmonia espacial com o corpo do outro.  É um jogo de tetris humano em velocidade lenta.
            Há ainda uma inimiga comum declarada: a mochila. Além de servir estrategicamente para ocupar um lugar, compromete com sua delicadeza de bigorna a paz daqueles que ocupam o espaço renegado: o corredor. Nele, a guerra fria é ainda mais quente e só sobrevive à tensão quem está de fato preparado para o movimento da dança-guerra. 
              Velados pela apatia do cobrador vamos nós, brigando pelo poder enquanto o motorista sorri pelo retrovisor, orgulhoso de sua brincadeira diária.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Um peso e um passo



                Vai ver que é justamente no autoboicote de suas ações que o homem consegue encontrar aquilo que o faz viver diferentemente de um peso de papel, por exemplo.  A plenitude só existe porque o esvaziamento também existe.  Essa coexistência necessária, essa angústia latente, esse desejo sempre frequente faz com que tenhamos a  motivação necessária para acordar e ir dormir todos os dias. Não é possível imaginar – pelo menos eu não consigo – um indivíduo que seja pleno e tenha encontrado ainda motivos para viver. Ora, se viver é, por excelência, a busca por uma plenitude sempre inalcançável, encontrá-la determina o fim da vida ainda em vida. É morrer em vida, e em vida plena. Talvez expliquemos com isso a necessidade que temos de sofrer.  Alguns com mais necessidades que outros. [ Chamamos esses de paranoicos.] O fato é que , em maior ou menor grau, existe certo prazer no sofrimento, cujas raízes se encontram também nessa sensação de maratona que nunca acaba. E não adianta fugir disso. Não adianta tentar fazer o caminho inverso ou impedir o autoboicote. Até nas posturas mais alternativas e despreocupadas existe o princípio da espera e recompensa. Sem ele, viver seria apenas uma questão de experimentar o óbvio. Eu ainda não topei com ninguém que tenha conseguido tal feito. Ainda bem...

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Progresso, regresso, congresso

E se a América do Sul fosse a do Norte e o Bush fosse o homem-bomba da vez? Se fôssemos todos da Zona Oeste, a Zona Sul seria ainda a Zona Sul ou só uma zona? Se Brasília fosse em Madureira, teríamos oferta de leis? Se o samba fosse no violino, teríamos Orsquestródomo?  E se pão doce fosse salgado, como se chamaria o pão de açúcar? Aliás, quando o Cristo se cansar e fechar os braços, o que vamos fazer? Como vai ser quando o Rio do Janeiro secar? Quando a bolsa de valores for parar nas mãos do bandido? Se o sertão virar mar, nordestino é marajá? Se limão secar nas árvores, serve caipirinha de maracujá?  Se escargot ir à Bahia, ele vira vatapá? Se acabar tudo em pizza, pode ser com Coca-Cola? Se o campo fosse a escola, ainda se jogaria bola? 

domingo, 8 de abril de 2012

Petecas e outros bobagens



          Parem de falar que a infância de hoje não é mais como era a sua. Essa obviedade , perdoem-me a redundância, é óbvia. No hall das coisas que mudam, a infância é apenas um pequeno estilhaço desse mosaico. Seus avós falavam isso de seus pais, estes falavam isso de você e agora, você, redentor da verdade e da consciência crítica, postula o fato da decadência de uma infância, supostamente, angelical.
           Você brincava de pião e soltava pipa. Seus filhos brincam de vídeo-game e navegam na internet. Pois bem, o mundo mudou e isso não te faz melhor ( nem pior ). O que vivemos na infância fizeram de nós o que somos hoje e o apego às coisas saudosas que temos atualmente, será o mesmo que as crianças de hoje terão por seus objetos saudosos no futuro. Não existe critério de valor nessa relação, não há patamares a serem preenchidos, tão pouco há extinção de infância.
             Dizer que vivemos em uma época determinada e aproveitamos certas coisas que já não podemos, de certa forma traz um status – termo aqui recheado de requinte, uma elegância fajuta, uma postura privilegiada que só existe na cabeça daqueles que sentem. A concepção de infância ideal já pulou da peteca para o computador e do computador pulará, certamente, para mais alguma coisa...