segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Tempos oblíquos

                        Não é novidade nenhuma que a desigualdade social se reflete nas relações interpessoais e, nesse sentido, na própria dinâmica organizacional da população. Também não é novidade que vivemos em uma país violento, em que estamos mais presos do que os presos. O que parece apresentar certo tom de ineditismo é o discurso oblíquo e em grande parte contraditório daqueles que postulam com veemência a legitimidade de atos que procuram exaltar uma suposta justiça feita. E esse discurso torpe e leviano demonstra não só um pensamento que é, por si só, retrógrado, mas também evidencia a própria condição medíocre em que nos colocamos quando, munidos de uma fajuta capacidade de fazer o certo, prendemos pescoços em postes. O que se prende eu já sei, está nos noticiários todos os dias. E o que se aprende? Ou melhor, e o que se apreende em relação a tudo isso? E não me diga que sou hipócrita e que, se meu Iphone tivesse sido roubado, eu também quereria espancar um ser – ainda humano. Somos assaltados todos os dias, por instâncias que mal supõe nossa vã filosofia. Não precisamos de mais umbigocentrismos. Tampouco precisamos dessa justiça que só se faz presente no preto, no pobre, no favelado.  Você não precisa adotar um bandido para mostrar que faz algo pela sociedade e eu não preciso adotar essa justiça para mostrar que me importo.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Sempre tem gente para chamar de nós




       Ontem, quando perguntado por uma amiga sobre o que fazer diante da sensação de estar perdido no mundo, respondi, categoricamente, como quem esperou um dia inteiro por aquele momento: “Acho que isso é um bichinho errado, que só entra na nossa cabeça quando perdemos nosso equilíbrio próprio.” Não sei se aquilo fez algum sentido para ela, mas, para mim, pareceu um grande punhado de palavras combinadas que não diziam por mim, só diziam. Foi como ser dotado de um conhecimento que sempre vou buscar na opinião alheia, quando, na verdade, está aqui, comigo, o tempo todo. Com isso, foi inevitável não me perguntar quantas outras coisas eu sei, quantas outras palavras eu tenho, quantas outras saídas eu encontro para os outros e fecho para mim. Somos sábios de dentro pra fora e apagamos as luzes quando nos voltamos para dentro.  Ela se satisfez – ou parece que – e foi dormir, mas eu não dormi. Eu fiquei. E as palavras que eu mesmo proferi com propriedade de quem passou por experiências muitas ficaram dançando descompassadas, procurando sentido justamente em quem as produziu: eu. Talvez seja o caso de achar que não somos donos dos conhecimentos que produzimos ou, ainda, que tudo o que pensamos só pode se revelar no outro, nunca em nós mesmos. Pode ser que daí decorra a função prática da amizade e do amor: a necessidade de se construir a partir do outro e do outro fazer o mesmo em nós. Não é à toa que a  sensação de se sentir perdido no mundo - a mesma sensação que ela, você e eu sentimos - está intimamente ligada à perda de uma amizade ou de um relacionamento. A grande questão nisso tudo é o que fica em nós depois das perdas – ou seria o que foi com elas?

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Mel



                  Derramo um pouco de mel nessa bola de mágoa na garganta que lateja e venho. Venho e me faço aqui várias vezes, porque somente assim é possível ensimesmar-se. É preciso estar não só atento, mas seguro e eu estou devagar, enrolando as pontas dos dedos nas pontas da coberta que me cubro devagar. Não me importo que seja devagar. Eu até prefiro. Só quero que seja. Quero que seja eu e o que ensimesmou em mim. Não quero que sobre espaço. Eu quero é que falte tempo para recorrer a qualquer coisa que não seja o caminho que só se faz enquanto eu o faço.  Vou devagar. Lento eu me desfaço.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Uma vez e mais

           E todas as vezes que me disserem que não, em todas as vezes que eu for desconstruído, eu vou teimar uma vez e mais. Minha vingança será parir amor sem lei, por todos aqueles que abortaram de mim meus planos. Eu não quero queimar etapas, nem me dopar de doses de risos de açúcar que se desfazem e viram maremoto. Eu quero experimentar as faces de todas elas. Até o final. Provar o amargo até a boca se sentir confortável e o corpo estar imune ao gosto acre. Uma vez e mais. Eu quero a experiência sólida da queda do precipício em câmera lenta até o finalzinho para entender os outros e me entender. Eu não quero tomar nada que me corrompa, nem quero nada que não me pertença. É um acordo meu e único.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Sobre a arte de palitar os dentes - Segunda Parte

               Verdade. É preciso talento para palitar os dentes. Manter a boca limpa é, ao mesmo tempo, esvaziar-se dos vestígios de sabor e encher-se dos vazios que os sabores deixam. Tem vezes que o sangue não para; ele corre em doses pequenas, todos os dias, lembrando a gente que há dor e que ela precisa ser sentida. Palitar os dentes é perigoso em todos os sentidos, porque deixa a boca e todas as suas imperfeições à mostra e essa vulnerabilidade não é para qualquer um. Quando falamos em palitar os dentes, não podemos ignorar nenhum deles. Daí decorre a dificuldade máxima de todo o processo. Alguns têm dentes grandes, largos, espaçosos, que se permitem palitar sem muito incômodo. Outros, mais estreitos, delgados, cheios de autonomia e personalidade, não se permitem raspar e perder aquele pedaço de comida gostoso que solta na saliva memórias de uma refeição bem feita. Também nós, algumas vezes, não nos deixamos raspar. Queremos manter memórias de sabores de refeições bem feitas e nos recusamos a comer de novo. Alguns se alimentam muito rapidamente e já instalam entre os dentes novos pedaços de novas pessoas. Isso é pular etapas. Eu me permito sangrar.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Sobre a maldade e seus domínios

                                    
            Não sei se é o mundo que anda desconsertado - ou desconcertado? - ou se sou eu que ando constantemente desencontrado. De uma forma ou de outra, o fato é que encontro nas pessoas, nestas pessoas que habitam este mundo mesmo e não qualquer outro, maldades muitas e eu já não posso mais. Não pode haver prazer na dor do outro, nem sorriso onde se faz alguém chorar. É uma premissa básica, bilhete de geladeira decorado, é o Bê-a-bá da ponta da língua da vida, que não é outra coisa senão uma série de encontros muitas vezes mau sucedidos. E mesmo consciente da pieguice de falar de bondade e consideração, enquanto o mundo está na vitrine reluzente das redes sociais, prefiro correr o risco de pecar por esse romantismo que aqui se ostenta e se depreda. Mudar as pessoas nunca foi minha intenção, mas gostaria de que soubessem o que penso sobre elas, sobre a maldade e seus domínios.  Não é verdade que todos colhem o que plantam. Também não é verdade que aqui pagamos pelo que fazemos. Isso é só conforto, para que a vida pareça apresentar certo tipo de congruência e lógica. Fazemos o que fazemos - essa é a única lógica. Alguns deixam neste mundo sua trajetória, outros saem dele sem serem percebidos.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Siso e Riso

              É inevitável não notar que, nos últimos dias, muitos casos sobre notáveis moradores de rua que, por seus talentos variados, ganharam um novo olhar da população. São inúmeros mendigos que pintam, que cantam, que parecem modelos, que fazem trabalhos artesanais e, por isso, perdem quase imediatamente a aura negativa que, naturalmente, existe em torno deles. Para esses o destino é quase certo. No sábado, aparecerão no Caldeirão do Huck e ganharão uma ajudinha ou, no domingo, o Esquenta vai carnavalizá-los e celebrar a mistura, o balanço, o caviar disfarçado de acarajé, ziriguidum e samba no pé. Esses ganham o aplauso da população e para esses apertamos os botões e viramos a cadeira. Esses, agraciados pelo destino, de alguma forma, merecem ganhar nossa atenção porque parece absurda a ideia de um mendigo violinista ou, pior ainda, parece absurdo e quase magnífico o fato de alguém que mora na rua ser 'simplesmente bonito'. O que me espanta e perturba é o destino daqueles que são só gente. Aqueles que não pintam, não cantam, não são modelos; são como eu e você. Aqueles que não terão um Lar Doce Lar e não fazem nada que não seja apenas tido como normalidade. Quanto a esses o que é feito? Pagam o preço por só serem o que são? Há quem diga que, se se esforçarem bastante, poderão também 'crescer na vida'. É a meritocracia que está ali, todos os dias, dizendo que temos que correr atrás do prejuízo - como se nós tivéssemos culpa ou responsabilidade por tudo o que nos acontece. "Deve ser algum drogado ou bêbado", alguns dizem e se vão; tomam o ônibus e seguem. No fim do expediente, tem cerveja gelada, ainda bem. Para os que não sabem ser artistas, não há capas de revistas, nem Gugu Na Minha Casa. Para esses algumas moedas do bolso são o bastante e olhe lá..