sábado, 27 de setembro de 2014

AMOR (ou o que eu penso dele)

"O amor sempre é amoroso; mas umas vezes é amoroso e unitivo, outras vezes amoroso e forte. Enquanto amoroso e unitivo, juntas extremidades mais distantes: enquanto amoroso e forte, divide os extremos mais unidos."
               Ele - o amor -, como unitivo, não pode ser outra coisa senão a própria união que lhe dá nome: todo coesão, vai na contramão do aos do mundo e expande a existência da vida em um corpo outro. Como forte, é a fragmentação da unidade que ele mesmo construiu; vai se alimentando de si mesmo a partir da matéria nutritiva que pariu. Um se traduz e se revela pela compreensão do outro. É o oito deitado, a Lemniscata de Bernoulli: sem possibilidade  de quebra, fazem voltas loucas e tentam, sem sucesso, escapar de uma condição natural, infinita e, por isso mesmo, imutável, cuja solução é tão somente a experiência, o (des) encontro, a fusão, a transa, o pacto de sangue, o elo. Vivem, assim, na esperança de quem, algum dia, terão sua identidade única, sem saber que, na verdade, um, sem o outro, é apenas a experiência da inutilidade.

Nossa absolvição

               Toda segunda-feira traz consigo uma verdade difusa. Toda manhã de segunda-feira tem um pouco de mistério e de segredo, de começo e de novidade, de preguiça e de renascimento. A segunda-feira é a maneira inevitável que encontramos para lidar com o amargo de uma vida que quase parece se repetir. Todas as segundas são já o confronto inescapável com o por vir e, por conta dessa sua natureza devoradora, ficamos em um estado de moleza proposital, em uma lentidão masoquista prazerosa.... Todas as desgraças que acontecem na segunda-feira são culpa da própria segunda-feira, e isso traz certa segurança de que estamos imunizados dos nossos erros por conta de uma energia que está acima de nós e que tudo pode. Somos totalmente inocentes numa segunda-feira. Ela é o dia autoexplicativo, intransitivo, impossível de não ser; ela é o dia em que os que se amam contam nos dedos, em que o café tem mais gosto de café, em que toda verdade é mais dolorosa. A segunda-feira, a prova-dos-nove de nossas responsabilidades, é um gole de pinga no desjejum da semana

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Big Bang

            Viver não é experimentar o óbvio, já sabemos. E não é à toa que estamos sempre na espera pelos encontros, pelas sinuosidades, pelas curvas acentuadas, pelas derrapadas, pelos inesperados, pelas alterações cardíacas, pelas coisas impalavráveis, pelas coisas impronunciáveis, pelo erro, pela fuga, pelo desconserto, pelas deturpações, pela secura na boca, pelo tremelicar das pernas, pelo borboletear na barriga, pela pulsação do peito, pela surpresa, pelo xeque-mate, pelos olhares oblíquos, pela sudorese das mãos, pelo último gole de pinga, pela última música da noite, pelo porre, pelo estrago, pela alteração de pressão, pela alteração de glicose, pela alteração dos hormônios, pelo dilatar das pupilas, pelo desequilíbrio, pelo desalinho, pelo triturar, pelo desestruturar.
             Estamos em busca, todos os dias, por aquilo que não é da ordem do dia. Sair do eixo natural de tranquilidade - seja ela emocional ou de qualquer outra natureza - é prazeroso e perigoso. Toda forma de emoção é um perigo delicioso.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Duas pernas e o mundo

             As pernas de pinça dela, que prendem todas as pontas dele, prendem também todos pedidos dos homens e todos os seus desejos. Ela sabe de si e de toda sua existência de pinça que pressiona e prende o eixo dos corpos presos. São duas as pernas longas de pinça, que prendem e apreendem o mundo quase todo - ou todo mesmo. E, só por ser pinça e prender tudo o que quer prender, sabe que também pode soltar com a mesma facilidade e indiferença. É pinça poderosa essa mulher. Às vezes, questiona se é a própria força talentosa que prende o mundo, ou se o mundo, já desfalecido e vulnerável, é preso por deleite próprio.

domingo, 8 de junho de 2014

3/4

Quem já se encontrou em vida que se sustente
Quem não que se corte e se remende e se reestruture e se reinvente
E quem em pedaços se entende tem vários inteiros diferentes para dar
Copo vazio também está cheio [de ar]

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Gata Todo Dia

           Linda que era um estrondo, estava decidida a me sair bem na calçada, entre o bafo quente da obra do vizinho e o vem e vai das crianças espevitadas da casa de cima. Pronta, de peito em pé, apertada numa blusinha cor-de-nada, soltei os cabelos como quem parece pouco interessada em ser deliciosa – gata, todo dia. Não desejava nada que não fosse só ser observada, deliberadamente ampliada pelo zoom dos olhos dos homens, das mulheres, das crianças e dos cachorros magrelos que acompanhavam o sacolejar do homem da feira, sempre com seu fiu-fiu barato e cheio de personalidade.  Saí pelo portão arranhando os dentes, ácida, descalça, num espreguiçar sem propósito, forçando uma despretensão sabida. Cadeira de praia, óculos de lince, um perigo só. O Sol estava a pino, as pessoas se embaraçavam na rua . Dois braços cruzados embaixo de dois mamilos quase aparentes: duas bolas perfeitamente redondas achadas através de uma tecido poroso. Depois de me certificar da minha desenvoltura mole, esperei pelo tiroteio. Eu, tábua de dardo, já estava pronta para ser alvejada. Uma espera dolorida! Jogo frio, sem puxadas, sem cantada barata, sem que-que-isso-Morena. A rua e a gente passante eram só a rua e a gente passante.  Gata molhada, toda fria, depois que cai de quatro, anda lenta, sem olhar para os lados, e vai se indo, impassível, impossível de sofrer. Cadeira no braço, aperto nas coxas, braços tesos na cintura, voltei retilínea para dentro. A criançada voltou a gritar, e eu, suspeitíssima da minha gatice, fui me perceber no espelho velho do banheiro.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Carta de precipício

           Escrevo porque se faz necessário que saiba sobre coisas que só eu sei. Pedro, acordei. Encostei meus pés no chão gelado do quarto e corri para o banheiro, para o conforto daquele tapetinho lilás que secou os seus pés quando saía do chuveiro e me contava sobre a diferença entre menta e hortelã. Eu nunca entendi bem a diferença, mesmo com a clareza inigualável de suas explicações - sempre muito bem acompanhadas de duas mãos que giravam no ar.
          Olhei o espelho velho e fosco sobre a pia e não gostei, Pedro. Acho que cansei de mim. Acho que não quero mais pegar o jornal pela manhã, nem passar o café naquele coador que a mamãe me deu. Pedro, você sabia que a mamãe me deu aquele coador no Natal passado? Às vezes, eu percebo que você não me nota, Pedro. Se me nota, penso que não me percebe toda inteira e isso me deixa aflita.
            Detesto essa mania que tem de dizer brincando o que sério nunca diz. Detesto, na verdade, um bocado de coisas em você, mas te adoro porque você sabe que eu rio das suas seriedades com toda sinceridade que me é possível. E eu gosto, Pedro. Gosto de sorrir.
             A carta, meu querido, é para pedir que cuide bem de minha Estelita. Ela come duas vezes ao dia e não irei em paz com a incerteza de que não cumpriu religiosamente com a obrigação de levá-la para sua casa. Ela é como a dona, vai se enroscar nas suas pernas magras com facilidade. 
           Não te culpo por só ver em mim uma ouvinte fiel de suas piadas. Eu não sei fazer mais que isso. Eu detesto esse batom preto que estou usando e acho até que você também. Será que foi ele que te impediu de me notar?
              Ai, Pedro, se soubesse das borboletas que já criei e que morreram na barriga mesmo só por dizer meu nome...

           Agora eu vou, Pedrinho. Não ligue para minha casa. Dona Olga detesta barulhos e eu já não mais estarei aqui para ouvir você me ligar e me dar, entristecido, alguma explicação. Não terei mais tempo para pensar na diferença entre a menta e a hortelã, mas quero que saiba que adorava aquelas explicações. Quando aqui chegar, cubra meu corpo com aquele lençol florido que eu adoro. Acho que ficarei bem sob ele, e aquelas tulipas vermelhas estampadas me alegram muitíssimo.

Um beijo bom.