domingo, 1 de fevereiro de 2015

Compositor de destinos

Temporal
Temporal
Tempo
Tempo
Tempo
Temp
Temp
Tem
Te
T
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Mea Culpa

             Em verdade, o amor pouco tem a ver com o coração. Retifico: nada tem a ver o amor com o coração. É na garganta que reside a parte mais sensível dos amadores. Digo porque ela segura as pontas de todo rebote negativo ou instaura, por meio de palavras, a existência do amor como sentimento que existe mesmo. É obscuro, pois, imaginar que exista uma forma de amar que não seja dependente de uma garganta resistente; ela é o cinto de segurança contra as enfermidades eventuais, retrocede ou impulsiona as manifestações, que são, antes de qualquer outra coisa, a ação direta não de um coração que pulsa, mas de uma garganta que toma coragem e admite responsabilidades. O coração é, na verdade, um álibi confortável, um réu inocente que aceita - e, às vezes, nega - o fardo pesado de uma culpa sem dono. É uma ilusão conveniente para quem ama acreditar que a essência de um órgão involuntariamente pulsante carrega consigo as diretrizes para o sucesso ou insucesso de uma relação amorosa. Ao contrário disso, imaginar que somos, gargantamente falando, senhores do grito ou do silêncio e, consequentemente, donos dos caminhos que percorremos, é tomar para si uma função perigosa. Culpa-se, então, a título de escapatória, o coração, o destino, ou alguma força de ordem metafísica, ilusões de uma anedota inventada para nos confortar diante dos paraísos tortuosos da vida.

Intranquilidade

                Veja-me como a quina da mesa do escritório, que, na sua natureza de coisa que é ponta, te aponta para uma dor aguda e latejante. Veja-me como o dedo mindinho; miúdo, estranho, de aspecto nunca ao certo descritível, de semblante errante e sempre inadequado para a harmonia dos pés. Veja-me como quem vê a morte, a fome, as pragas, os pecados, as imoralidades, as perversões. [Arregale os olhos.] Veja como quem vê um gato aberto, atropelado, esfacelado; como quem estuda a anatomia de suas tripas e percorre com atenção o rastro de sangue, que é o rastro da sua própria história. Veja e ouça; ouça com estetoscópios de metros o bate-estaca da minha presença que só é presença
porque só presença eu sei ser. Veja a mim dentro da geladeira, sobre os frutos estragados. Veja-me deteriorando os objetos, oxidando todas as coisas, rangendo as portas do carro, entupindo a pia, derrubando os retratos das paredes, sendo a parede, sendo os retratos e depois derrubando tudo novamente. Veja-me no incômodo, no pinga-pinga da bica da cozinha. Veja-me, também, na primeira rajada de água fria do banho quente, antes de de dormir; encontre a paz na perturbação. Lá, bem lá, estarei eu.

Poesia da 4 e tal

Meu bem, a poesia existe.
Mas ela não é essa dos livros didáticos.
Ela dói.
Ela dói enquanto você dorme pensando.
Dói enquanto dorme pensando em outros.
Ela carece de sangue venoso e arterial.
Meu amor, minha poesia é só sua.
Só nossa.
Só minha.

Minha poesia é só minha e sua.
Nossa poesia é só nossa e minha.
Minha poesia é um paciente na fila do transplante.
Minha poesia só tem um pulmão.
E nenhum fígado.
Minha poesia toma pinga pensando em você.
Minha poesia fuma um cigarro pensando na gente.
Minha poesia precisa da nossa poesia.
Minha poesia te chama, meu amor.
Venha [!]

Minha poesia taca fogo no corpo e dança.
Minha poesia dança com fogo no corpo cheia de mistério.
Minha poesia toca só aqui, meu amor.
Minha poesia quer ser seu amor também.
Com Janis Joplin, ou Billie Holiday, ou Chico, ou o que você quiser que seja.
Eu troco a frequência enquanto você não olha.
Mas venha.
Minha poesia tem fome grande.
Amor, minha poesia quer dançar pelada no terraço enquanto você mede minha cintura com seus palmos.
Vamos dançar a minha poesia [?]
Minha poesia vai dormir.
Mas minha poesia te espera dormindo acordada.
Cheia de café.
Minha poesia dorme abaixo do teu travesseiro.
Acorda.
A minha poesia voa nos olhos dos homens.
Sobre tua cabeça.
Sob teus olhos
Meu amor; minha poesia desmaiou nos teus braços.

Salva-me.
Meu amor, salva-me.
 
 

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Ou

Poesia
Todo
Dia
É
Sinal
De
Dor
Ou
Alegria?

Minhas palavras:

Verdades inteiras
Laranjas perfumadas
Cachaças curtidas
Estilhaços reunidos
Músicas certeiras
Músicas incertas
Sonhos asmáticos
Amores lexicais
Léxicos sexuais
Abraços de gás hélio
Beijos sôfregos
Colos fortes
Sementes furiosas
Raios irados
Tempestades aveludadas
Venenos curativos
Convites de vidas
Pedidos desesperados
Nuvens indomáveis
Plantas rasteiras
Cobras astutas
Rios sem freios
Gritos no escuro
Corações engarrafados.


Meios ouvidos.

Manifesto Incendiário

                  Todo texto é um milagre; todo milagre é uma exceção. Todo texto é uma estrela-novidade, uma bandeira fincada no oceano. Toda estrela é o resquício de algo que já existiu e que ainda brilha aos nossos olhos atrasados. De tempos em tempos, temos de incendiar os textos que fazemos. Queimá-los. Purificar as letras com fogo que devora. Lançar sobre a superfície deles essa fome de fogo que come e que só deixa pó. Queimá-los não é o fim deles, é o começo de uma nova etapa. Queima-se o texto, mas as realidades instauradas por ele vão parar nas vias respiratórias, no pulmão e de lá tomam rumo para as vias sanguíneas, para a raiz do osso, para a retina, para a gengiva, para as unhas, para a sola do pé. Quando queimamos os textos e eliminamos sua manifestação física, colocamos à prova o quanto dele existe para além do que está posto e testamos a nós mesmos, considerando que a mensagem que nele reside pode passar a existir somente em espíritos preparados, que sabem para onde olhar. Queimar os textos e eternizar a mensagem ou manter os textos e efemerizá-la? Não sou dono do que escrevo, definitivamente, mas escolho parte do meu destino e posso me rebelar ou me calar frente às palavras que saem de mim. É dia de rebelião.