Vai ver que é justamente no
autoboicote de suas ações que o homem consegue encontrar aquilo que o faz viver
diferentemente de um peso de papel, por exemplo. A plenitude só existe porque o esvaziamento
também existe. Essa coexistência
necessária, essa angústia latente, esse desejo sempre frequente faz com que
tenhamos a motivação necessária para
acordar e ir dormir todos os dias. Não é possível imaginar – pelo menos eu não
consigo – um indivíduo que seja pleno e tenha encontrado ainda motivos para
viver. Ora, se viver é, por excelência, a busca por uma plenitude sempre
inalcançável, encontrá-la determina o fim da vida ainda em vida. É morrer em
vida, e em vida plena. Talvez expliquemos com isso a necessidade que temos de
sofrer. Alguns com mais necessidades que
outros. [ Chamamos esses de paranoicos.] O fato é que , em maior ou menor grau,
existe certo prazer no sofrimento, cujas raízes se encontram também nessa
sensação de maratona que nunca acaba. E não adianta fugir disso. Não adianta
tentar fazer o caminho inverso ou impedir o autoboicote. Até nas posturas mais
alternativas e despreocupadas existe o princípio da espera e recompensa. Sem
ele, viver seria apenas uma questão de experimentar o óbvio. Eu ainda não topei
com ninguém que tenha conseguido tal feito. Ainda bem...
sexta-feira, 26 de abril de 2013
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Progresso, regresso, congresso
E se a América do Sul fosse a do Norte e o Bush fosse o homem-bomba da vez? Se fôssemos todos da Zona Oeste, a Zona Sul seria ainda a Zona Sul ou só uma zona? Se Brasília fosse em Madureira, teríamos oferta de leis? Se o samba fosse no violino, teríamos Orsquestródomo? E se pão doce fosse salgado, como se chamaria o pão de açúcar? Aliás, quando o Cristo se cansar e fechar os braços, o que vamos fazer? Como vai ser quando o Rio do Janeiro secar? Quando a bolsa de valores for parar nas mãos do bandido? Se o sertão virar mar, nordestino é marajá? Se limão secar nas árvores, serve caipirinha de maracujá? Se escargot ir à Bahia, ele vira vatapá? Se acabar tudo em pizza, pode ser com Coca-Cola? Se o campo fosse a escola, ainda se jogaria bola?
domingo, 8 de abril de 2012
Petecas e outros bobagens
Parem de falar que a infância de hoje não é mais como era a sua. Essa obviedade , perdoem-me a redundância, é óbvia. No hall das coisas que mudam, a infância é apenas um pequeno estilhaço desse mosaico. Seus avós falavam isso de seus pais, estes falavam isso de você e agora, você, redentor da verdade e da consciência crítica, postula o fato da decadência de uma infância, supostamente, angelical.
Você brincava de pião e soltava pipa. Seus filhos brincam de vídeo-game e navegam na internet. Pois bem, o mundo mudou e isso não te faz melhor ( nem pior ). O que vivemos na infância fizeram de nós o que somos hoje e o apego às coisas saudosas que temos atualmente, será o mesmo que as crianças de hoje terão por seus objetos saudosos no futuro. Não existe critério de valor nessa relação, não há patamares a serem preenchidos, tão pouco há extinção de infância.
Dizer que vivemos em uma época determinada e aproveitamos certas coisas que já não podemos, de certa forma traz um status – termo aqui recheado de requinte, uma elegância fajuta, uma postura privilegiada que só existe na cabeça daqueles que sentem. A concepção de infância ideal já pulou da peteca para o computador e do computador pulará, certamente, para mais alguma coisa...
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Sobre a arte de palitar os dentes
Palitar os dentes é uma tarefa sábia
A gente se livra dos pedaços do mundo
E vai se livrando dos pedaços da gente.
Mas é preciso sutileza.
Nessa brincadeira de se livrar
Você se livra muito de si próprio
E corre sangue...e corre lágrima.
Não se pode esquecer do auxílio dos dedos
Eles cobrem o mau jeito, a timidez dos dentes
Preservam a alma dos olhares atentos
Cheios de curiosidade sobre o sorriso
Não o sorriso da boca
Mas o sorriso da vida.
domingo, 18 de dezembro de 2011
Estrofe única
É preciso de um bocado de dentes
Escancarados, raivosos
Para rir das desgraças do mundo
Para roer as mazelas da alma
E comer (com calma) os pedaços de vida
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Ele
Ele era todo cheio de si. Cheio de tudo, cheio de medos. Ele era o melhor em quase tudo e o pior também. Era diferente, e disso ele sabia. Ele estava cheio de ser o melhor e farto de si, farto de medos, farto de tudo.
Ele tinha sucesso no trabalho e azar no amor. E se tivesse amor, tinha mais trabalho, e então, menos amor. Era o líder do amor pagão e líder do trabalho sempre. Sempre no dissabor salgado da paixão descrente.
Ele via coisas além e ensinava coisas que nem aprendera. É que ensinar o outro é ensinar a si próprio sem o peso da culpa em não saber. O próximo apreendia e aprendia. Ele se prendia.
Ele sentia o futuro. Mudava o presente e se aproximava mais do que esperava se afastar. Afastava-se também da sorte, mantinha-se forte e se aproximava da morte.
Ele um dia se foi. Foi ele, foi tudo e foi si. Foi líder da vida, que o ensinou e aprendeu com ele a ensinar o outro. Ele se afastou da vida e conheceu a lua. Dizem que ele vive ainda nos olhos de quem sabe para onde olhar.
Ele um dia se foi. Foi ele, foi tudo e foi si. Foi líder da vida, que o ensinou e aprendeu com ele a ensinar o outro. Ele se afastou da vida e conheceu a lua. Dizem que ele vive ainda nos olhos de quem sabe para onde olhar.
domingo, 30 de outubro de 2011
2 Linhas
[ABRE ASPAS]
EU, QUE NUNCA DEI NADA ALÉM DO QUE RECEBI, NÃO PRETENDO MUDAR EM NADA. GOSTO DESSE EQUILÍBRIO QUE A VIDA PROPÕE, COMO QUEM FAZ DA PAIXÃO UMA EQUAÇÃO IDEAL, E DE NÓS SEUS NÚMEROS PERFEITOS.
[FECHA ASPAS]
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