Criou-se uma ideia equivocada que postula a verdade acima de qualquer
coisa. Nessa esteira, não é raro o discurso cheio de personalidade que
diz: "Falo a verdade doa a quem doer". O que parece escapar nessa
premissa supostamente positiva é que a verdade - preciosa ferramenta, a
princípio, purificadora - quase sempre se confunde com uma arrogância
ímpar, revelando-se muito mais como uma arma opressora e cruel do que
como um bem a ser preservado. Assim, sob o pretexto vulgar
de serem portadores da verdade, muitos acreditam gozar de certo
prestígio social, de certo prazer que se consolida na crença coletiva da
- abre aspas - pessoa sincera - fecha aspas. É de praxe, portanto,
discursos racistas, homofóbicos, genocidas, machistas e muitos outros de
natureza igualmente criticáveis que se apóiam na lógica esquizofrênica
da verdade acima de tudo, como se trouxessem a luz do esclarecimento,
quando, na verdade, só ratificam sua própria essência estúpida. É um
engano duplo: 1) acredita-se que toda verdade deva ser cuspida
indiscriminadamente nos olhos de quem quer que seja; 2) esquece-se,
ingenuamente, do questionamento sobre sua própria legitimidade.
Dispenso, a partir disso, todo ato de degradação humana que se traveste
de verdade absoluta. Repudio as verdades de quem pretende promover
apenas o engano, a confusão, as enfermidades, o desencontro, as
mazelas. Nego, sem nenhum medo de parecer inflexível, a verdade que só é
verdade porque se mostra convenientemente incômoda.
domingo, 8 de março de 2015
domingo, 22 de fevereiro de 2015
Metros a fio
Por um tempo, eu acreditava que sabia exatamente o meu tamanho. Não me
refiro àquele metrificável, porque, quanto a ele, eu pouco tenho a
pensar a respeito. Em termos práticos, esse meu tamanho só dá forma a
uma existência que, sem ele, seria pulverizada e etérea. Eu falo de um
espaço outro, da dimensão que eu assumiria para além da matéria física,
daquele tamanho meu que varia de pessoa para pessoa. Estou bem certo de
que nunca fui do mesmo tamanho nesse sentido. Ao contrário
disso, estou me aumentando e me crescendo dentro dos que me cercam
constantemente; é um movimento involuntário e necessário, já que ser
grande demais para todos seria demais para minha capacidade de
significar coisas boas e ser pequeno sempre estaria em desconformidade
com minha vontade de mundo. Mas o problema que me interessa e para o
qual eu não posso deixar de olhar atualmente é quando há certo
descompasso entre aquele tamanho que achamos que temos e aquele que
temos de fato. Nesse ponto, reside, talvez, a problemática para dores
variadas entre as pessoas: nunca há certezas sobre o quão equiparados
são os tamanhos entre duas pessoas. Descobrir que somos - ou éramos -
menos do que achávamos é escamotear certezas, fragilizar medidas e
apagar sonhos. Veja que há pessoas na vida que passam por ela sem ser
dar conta do tamanho imenso que ocupam nos outros; outras, como eu, são
bem pequenos e nunca fizeram outra coisa senão procurar crescer.
A Lua
minguante,
quando ansiosa,
e cheia de personalidade,
pula do pano de fundo do céu preto e
pisca. Curvada em sua magreza de lua que míngua,
sorri de lado, meio que sem jeito, meio que sem prumo.
Entende que não é cheia de si
porque ninguém a olha como deveria.
Magrela e feito uma foice luminosa,
corta as nuvens;
espalha novidades
e imprime na noite
um gosto qualquer de maravilhamento.
quando ansiosa,
e cheia de personalidade,
pula do pano de fundo do céu preto e
pisca. Curvada em sua magreza de lua que míngua,
sorri de lado, meio que sem jeito, meio que sem prumo.
Entende que não é cheia de si
porque ninguém a olha como deveria.
Magrela e feito uma foice luminosa,
corta as nuvens;
espalha novidades
e imprime na noite
um gosto qualquer de maravilhamento.
domingo, 1 de fevereiro de 2015
A face oculta da Lua
Minhas palavras,
essas ordenadas em versos que ofereço, são
só o que delas deixo sobreviver.
Outra parte,
a mais preciosa,
aquela que deixa brecha para me penetrar,
a que se contorce e se debate,
meu lado mais furioso e, por isso mesmo, mais visceral,
a minha ponta de lança,
o que me atinge e me desmorona,
a vagina, o clitóris, meus seios tesos,
o eriçar das minhas coxas,
meu calcanhar de Aquiles,
minha música lenta preferida,
meu desejos e medos,
os meus sonhos alados,
minha esperanças grandes e minhas esperanças miúdas,
a polpa da minha fruta,
meu bilhete de loteria,
aquela dor nunca dita,
aquele porre que tomei de amor,
aquelas lágrimas que não caíram, mas que existiram,
as minhas observações mais minuciosas,
...
essas ordenadas em versos que ofereço, são
só o que delas deixo sobreviver.
Outra parte,
a mais preciosa,
aquela que deixa brecha para me penetrar,
a que se contorce e se debate,
meu lado mais furioso e, por isso mesmo, mais visceral,
a minha ponta de lança,
o que me atinge e me desmorona,
a vagina, o clitóris, meus seios tesos,
o eriçar das minhas coxas,
meu calcanhar de Aquiles,
minha música lenta preferida,
meu desejos e medos,
os meus sonhos alados,
minha esperanças grandes e minhas esperanças miúdas,
a polpa da minha fruta,
meu bilhete de loteria,
aquela dor nunca dita,
aquele porre que tomei de amor,
aquelas lágrimas que não caíram, mas que existiram,
as minhas observações mais minuciosas,
...
Essa,
quase desconhecida e negligenciada,
está em instâncias cujos trajetos são conhecidos somente
àqueles que se propõem a percorrer o trajeto sinuoso
de mim.
quase desconhecida e negligenciada,
está em instâncias cujos trajetos são conhecidos somente
àqueles que se propõem a percorrer o trajeto sinuoso
de mim.
Lógica do mundo
Vê-se que nada é tão belo quanto o desassossego,
Porque, na calmaria, reside o campo infértil
Das certezas
E nada mais impróprio para a vida humana.
Porque, na calmaria, reside o campo infértil
Das certezas
E nada mais impróprio para a vida humana.
Vê-se que nada é tão forte quanto o pertencimento,
Porque, na distância, existe uma centelha viva
De insegurança
E nada mais alucinador para consciências frágeis.
Vê-se que nada é tão perigoso quanto a lealdade,
Porque, na traição, algo há de mistério negativo,
De nó de marinheiro
E nada mais perturbador para a engenharia dos sonhos.
Vê-se que nada é tão básico quanto a verdade,
Porque, na escuridão, mora o paraíso oblíquo das enfermidades,
Das involuções
E nada mais viral para um corpo sadio.
Vê-se que nada é tão estranho quanto o amor,
Porque, no ódio, tudo se autoexplica num circuito simples
De enganos
E nada mais matemático para o insucesso do mundo.
Porque, na distância, existe uma centelha viva
De insegurança
E nada mais alucinador para consciências frágeis.
Vê-se que nada é tão perigoso quanto a lealdade,
Porque, na traição, algo há de mistério negativo,
De nó de marinheiro
E nada mais perturbador para a engenharia dos sonhos.
Vê-se que nada é tão básico quanto a verdade,
Porque, na escuridão, mora o paraíso oblíquo das enfermidades,
Das involuções
E nada mais viral para um corpo sadio.
Vê-se que nada é tão estranho quanto o amor,
Porque, no ódio, tudo se autoexplica num circuito simples
De enganos
E nada mais matemático para o insucesso do mundo.
Mea Culpa
Em verdade, o amor pouco tem a ver com o coração. Retifico: nada tem a
ver o amor com o coração. É na garganta que reside a parte mais sensível
dos amadores. Digo porque ela segura as pontas de todo rebote negativo
ou instaura, por meio de palavras, a existência do amor como sentimento
que existe mesmo. É obscuro, pois, imaginar que exista uma forma de amar
que não seja dependente de uma garganta resistente; ela é o cinto de
segurança contra as enfermidades eventuais, retrocede
ou impulsiona as manifestações, que são, antes de qualquer outra coisa,
a ação direta não de um coração que pulsa, mas de uma garganta que toma
coragem e admite responsabilidades. O coração é, na verdade, um álibi
confortável, um réu inocente que aceita - e, às vezes, nega - o fardo
pesado de uma culpa sem dono. É uma ilusão conveniente para quem ama
acreditar que a essência de um órgão involuntariamente pulsante carrega
consigo as diretrizes para o sucesso ou insucesso de uma relação
amorosa. Ao contrário disso, imaginar que somos, gargantamente falando,
senhores do grito ou do silêncio e, consequentemente, donos dos caminhos
que percorremos, é tomar para si uma função perigosa. Culpa-se, então, a
título de escapatória, o coração, o destino, ou alguma força de ordem
metafísica, ilusões de uma anedota inventada para nos confortar diante
dos paraísos tortuosos da vida.
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