terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Mel



                  Derramo um pouco de mel nessa bola de mágoa na garganta que lateja e venho. Venho e me faço aqui várias vezes, porque somente assim é possível ensimesmar-se. É preciso estar não só atento, mas seguro e eu estou devagar, enrolando as pontas dos dedos nas pontas da coberta que me cubro devagar. Não me importo que seja devagar. Eu até prefiro. Só quero que seja. Quero que seja eu e o que ensimesmou em mim. Não quero que sobre espaço. Eu quero é que falte tempo para recorrer a qualquer coisa que não seja o caminho que só se faz enquanto eu o faço.  Vou devagar. Lento eu me desfaço.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Uma vez e mais

           E todas as vezes que me disserem que não, em todas as vezes que eu for desconstruído, eu vou teimar uma vez e mais. Minha vingança será parir amor sem lei, por todos aqueles que abortaram de mim meus planos. Eu não quero queimar etapas, nem me dopar de doses de risos de açúcar que se desfazem e viram maremoto. Eu quero experimentar as faces de todas elas. Até o final. Provar o amargo até a boca se sentir confortável e o corpo estar imune ao gosto acre. Uma vez e mais. Eu quero a experiência sólida da queda do precipício em câmera lenta até o finalzinho para entender os outros e me entender. Eu não quero tomar nada que me corrompa, nem quero nada que não me pertença. É um acordo meu e único.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Sobre a arte de palitar os dentes - Segunda Parte

               Verdade. É preciso talento para palitar os dentes. Manter a boca limpa é, ao mesmo tempo, esvaziar-se dos vestígios de sabor e encher-se dos vazios que os sabores deixam. Tem vezes que o sangue não para; ele corre em doses pequenas, todos os dias, lembrando a gente que há dor e que ela precisa ser sentida. Palitar os dentes é perigoso em todos os sentidos, porque deixa a boca e todas as suas imperfeições à mostra e essa vulnerabilidade não é para qualquer um. Quando falamos em palitar os dentes, não podemos ignorar nenhum deles. Daí decorre a dificuldade máxima de todo o processo. Alguns têm dentes grandes, largos, espaçosos, que se permitem palitar sem muito incômodo. Outros, mais estreitos, delgados, cheios de autonomia e personalidade, não se permitem raspar e perder aquele pedaço de comida gostoso que solta na saliva memórias de uma refeição bem feita. Também nós, algumas vezes, não nos deixamos raspar. Queremos manter memórias de sabores de refeições bem feitas e nos recusamos a comer de novo. Alguns se alimentam muito rapidamente e já instalam entre os dentes novos pedaços de novas pessoas. Isso é pular etapas. Eu me permito sangrar.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Sobre a maldade e seus domínios

                                    
            Não sei se é o mundo que anda desconsertado - ou desconcertado? - ou se sou eu que ando constantemente desencontrado. De uma forma ou de outra, o fato é que encontro nas pessoas, nestas pessoas que habitam este mundo mesmo e não qualquer outro, maldades muitas e eu já não posso mais. Não pode haver prazer na dor do outro, nem sorriso onde se faz alguém chorar. É uma premissa básica, bilhete de geladeira decorado, é o Bê-a-bá da ponta da língua da vida, que não é outra coisa senão uma série de encontros muitas vezes mau sucedidos. E mesmo consciente da pieguice de falar de bondade e consideração, enquanto o mundo está na vitrine reluzente das redes sociais, prefiro correr o risco de pecar por esse romantismo que aqui se ostenta e se depreda. Mudar as pessoas nunca foi minha intenção, mas gostaria de que soubessem o que penso sobre elas, sobre a maldade e seus domínios.  Não é verdade que todos colhem o que plantam. Também não é verdade que aqui pagamos pelo que fazemos. Isso é só conforto, para que a vida pareça apresentar certo tipo de congruência e lógica. Fazemos o que fazemos - essa é a única lógica. Alguns deixam neste mundo sua trajetória, outros saem dele sem serem percebidos.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Siso e Riso

              É inevitável não notar que, nos últimos dias, muitos casos sobre notáveis moradores de rua que, por seus talentos variados, ganharam um novo olhar da população. São inúmeros mendigos que pintam, que cantam, que parecem modelos, que fazem trabalhos artesanais e, por isso, perdem quase imediatamente a aura negativa que, naturalmente, existe em torno deles. Para esses o destino é quase certo. No sábado, aparecerão no Caldeirão do Huck e ganharão uma ajudinha ou, no domingo, o Esquenta vai carnavalizá-los e celebrar a mistura, o balanço, o caviar disfarçado de acarajé, ziriguidum e samba no pé. Esses ganham o aplauso da população e para esses apertamos os botões e viramos a cadeira. Esses, agraciados pelo destino, de alguma forma, merecem ganhar nossa atenção porque parece absurda a ideia de um mendigo violinista ou, pior ainda, parece absurdo e quase magnífico o fato de alguém que mora na rua ser 'simplesmente bonito'. O que me espanta e perturba é o destino daqueles que são só gente. Aqueles que não pintam, não cantam, não são modelos; são como eu e você. Aqueles que não terão um Lar Doce Lar e não fazem nada que não seja apenas tido como normalidade. Quanto a esses o que é feito? Pagam o preço por só serem o que são? Há quem diga que, se se esforçarem bastante, poderão também 'crescer na vida'. É a meritocracia que está ali, todos os dias, dizendo que temos que correr atrás do prejuízo - como se nós tivéssemos culpa ou responsabilidade por tudo o que nos acontece. "Deve ser algum drogado ou bêbado", alguns dizem e se vão; tomam o ônibus e seguem. No fim do expediente, tem cerveja gelada, ainda bem. Para os que não sabem ser artistas, não há capas de revistas, nem Gugu Na Minha Casa. Para esses algumas moedas do bolso são o bastante e olhe lá..

Quando a gente chove

            Quando a gente chove por dentro não há quem interrompa. Quando a gente chove, engarrafa tudo no peito, transborda tudo nos olhos, falta luz no rosto e sobra muito o que enxugar. Quando a gente chove por dentro, o nosso mau tempo não dá um tempo sequer. Quando a gente chove, o melhor é deixar escorrer e vazar um pouco de água e um pouco da gente também. Deixar-se chover e nada mais.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Foi mal, professor

                      A verdade é dura e já alarmante: agora, espera-se que o professor seja um showman. Ele deve cantar, dançar, interpretar, coreografar o hit do momento e fazer coisas afins. Tudo isso com o intuito de atrair os olhares dos alunos, para pôr em prática uma didática circense. O que me preocupa nisso tudo é o peso e a cobrança que recaem sobre as costas de um profissional que deve ser capaz de chegar a todos os alunos, desde o cdf até o rebelde sem causa, com talento e maestria. A questão é mais profunda e o que parece escapar a essa cobrança exagerada é a consciência crítica de que o mestre não é milagreiro, muito menos popstar. Não se pode esperar dele feitos que têm muito mais a ver com talentos de um programa de tv. Não me leve a mal, não estou defendendo uma ditadura escolar, nem um saudosismo tradicional. Estou falando de inconsistência conceitual. Não esperamos de um médico que ele seja capaz de convencer seu paciente de que ele deve tormar remédio para se curar. Por que esperamos do professor que ele seja capaz de transformar bigorna em obra de arte a qualquer custo? Por que o desinteresse escolar é sempre associado ao desempenho do professor? Por que sempre esperamos que o professor se reinvente, como se ele pudesse, realmente, tomar em suas mãos o destino de todos seu alunos? Enquanto o professor for compreendido como redentor do país e enquanto a sociedade esperar que ele possa mudar o mundo por si só, alunos estarão em suas carteiras, esperando que o mestre de cerimônia os convença de que merece atenção. O futuro pode ser amargo e a educação do Brasil não precisa de professores-mágicos, precisa rever o papel do aluno e do professor em sala de aula, pois não quero carregar o fardo de ser a única salvação para o cenário caótico do país.